
Autor argentino, que já foi figurante de cinema e vendedor de jóias no Rio, criou um blog de poesia brasileira , que em poucos dias já contava com a participação de dezenas de poetas e hoje já passa a casa dos cem. O blog tornou-se a antologia mais viva da poesia que se faz no Brasil.
O Mimeografo destaca Claudio Oliveira
A tarde e eu
Por detrás do vidro do carro, vejo, nesta tarde em que chove, a tarde que esquecerei. E porque a esquecerei, esta tarde possui uma beleza diferente da de todas as outras tardes que não esquecerei. Desta tarde, nada ficará, embora a veja, agora, fugaz, diante de mim. Não posso tê-la, apenas perdê-la. É real esta tarde que esquecerei. As tardes que não esquecerei, ao contrário, são as tardes que inventei. Esta tarde que tenho diante de mim, por detrás do vidro do carro, esta tarde em que chove, não posso inventá-la. Só posso inventá-la como a tarde que esquecerei. Por isso, escrevo sobre esta tarde. Para ficar registrado esse esquecimento.
Eu mesmo, tão inventado quanto as tardes que não esquecerei, diante desta tarde que esquecerei, tão real e fugaz, sinto-me também fugaz e real. Eu mesmo sou este que esquecerei: a tarde, mas também esse (eu?) que vê a tarde e que esquecerei ter sido; este que não pude inventar, senão como aquele que esquecerei, e que esquecerei ter esquecido.
Clique no título para ler outras pérolas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário