quinta-feira, 17 de maio de 2007

Relâmpago


Foi coisa de segundos.Meu amigo ouviu um carro familiar,foi à janela e disse que a mulher estava chegando. E na sequência falou nervoso: "Tem alguma coisa errada, minha mulher foi sequestrada". Viu a mulher parar o carro, ser abordada e arrancar novamente. Ela estava grávida e a novidade seria celebrada naquela noite. Achei precipitada a conclusão, disse que podia não ser bem aquilo, ela poderia ter ido comprar algo que esquecera, ter visto um amigo... Cinco minutos depois ele seguiu a intuição e ligou para a polícia. Estava certo.

Dentro do carro os assaltantes peguntaram quem era o homem na janela. "Meu marido", respondeu ela. Os bandidos analisaram a situação e decidiram abandonar logo o carro. Foi quando ela ouviu outra voz feminina. Em seu cárcere móvel, trafegando pelas ruas de São Paulo, havia outra vítima de sequestro relâmpago- e a ponto de ter um troço. Minha amiga disse que estava grávida e aos gritos os homens disseram que as duas mantivessem a cabeça baixa.

Em casa, vivi a agonia de meu amigo. Bastaram alguns minutos para uma devastação emocional. Recém-casado, esperando o primeiro filho, o casal começava a vida com difculdade. "Não vou aguentar, não vou aguentar se algo acontecer" ele repetia dando voltas na casa, até que a polícia e os parentes chegaram.

Os ladrões trocaram de carro, sacaram dinheiro no caixa eletrônico e afirmando que também eram " de família , dona", abandoram as duas mulheres numa farmácia. Minha amiga ligou para casa para tranquilizar o marido e pegou um táxi imediatamente. No caminho repassava as cenas que tinha vivido, segurava o ventre com as duas mãos. Tinha ficado incrivelmente calma. Até aquele momento.

Ao chegar em casa foi ter com os policiais, que começaram a descrever os possíveis bandidos - acertaram todos os detalhes! A polícia SABIA quem eram os bandidos, suas características fisicas e que atormentavam a vizinhança havia meses.MESES!Nenhuma comunicação à população da região, nenhum cartaz com o retrato falado dos suspeitos, NADA que pudesse alertar os habitantes sobre o perigo que corriam. "Esse não é nosso serviço, dona". A polícia e a estratégia de segurança não mudam, não envolvem as possíveis vítimas,não tentam montar uma rede de proteção para a vizinhança,retém informações que ajudariam a combater a violência. Mas meus amigos vão mudar. Estão de malas prontas para deixar o bairro.

Visitas

Eu me lembro bem das visitas de João Paulo II. Um frisson tomava conta da gente quando ele vinha ao país. Os dias que antecediam à chegada eram dedicados aos preparativos e pairava uma certa euforia . Com Bento XVI foi bem diferente.Em São Paulo todo mundo reclamava, antevia um trânsito ainda mais caótico e isso é o pior dos infernos para o paulistano. Eu mesma marquei um encontro com uma amiga e ela desmarcou argumentando que as ruas estariam intransitáveis por conta do Sumo Pontífice. "Eu tenho medo do Papa", confessou.
O Vaticano é caprichoso, preparou cenários monumentais, reuniu milhares de fiéis, realizou rituais belissimos. É um show, na melhor expressão da palavra, que a ritualização sacraliza. Na missa dos bispos, a visão de dezenas de senhores vestidos de preto com adereços em púrpura impressionava, havia naquela coreografia de orações e reverências uma aura de poder. Gosto de rituais e gostei das posições assumidas claramente, mesmo que não concordasse. Num mundo e em que a conveniência ameaça a sinceridade é muito bom ouvir um discurso sem rodeios.
Acompanhei a polêmica do aborto, dei uma olhada nas coberturas, vi alguns passeios papais com a sensação de que faltava alguma coisa : faltou um hit para o Papa. É, uma trilha sonora para criar uma atmosfera e marcar sua passagem pelo
Brasil. Quem não lembra daquela musiquinha " A benção João de Deus..."?, que pegou de tal forma que mesmo quem não era católico aprendia por osmose. Todo mundo cantava , a multidão tinha uma identidade musical. Quentin Tarantino disse uma vez que escolhe cuidadosamente as trilhas sonoras porque uma música é capaz de trazer à memória cenas de seus filmes. Habemos papa sem hit. Confirmei essa sensação de ausência com algumas pessoas, soube que o hino criado para Bento XVI não pegou.
Os dias papais foram uma aula de marketing pessoal e instituicional, pompa e circusntância.A enxurrada de imagens e informações católicas, a onipresença papal, foi percebida até pelos mais distraídos.No domingo de manhã,eu tomava café numa padaria e um bêbado assistia à transmissão da missa de canonização de Frei Galvão. Forçou para fazer foco na tela,olhou o Papa por algum tempo,disse com uma voz pastosa: " E aí ? Ele veio pra paxar o ano ??".

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Deixem as madeixas!



Quando cheguei ela estava pesquisando na internet e se perguntando como tinha sobrevivido tanto tempo sem o Google. Da cozinha vinha um cheiro delicioso. " Vou servir o almoço assim que acabar aqui. Você conhece algum lugar que venda perucas?" Perucas ??!?!. De imediato lembrei de pessoas com interlace, implantes e de carecas disfarçadas. É o tipo de detalhe que não passa despercebido. Quem nunca ficou com o olhos fixos num interlecutor com cabelo artificial que atire a primeira madeixa!Foi então que olhei atentamente para ela. Os belos cachos em profusão haviam desaparecido.Foram tranformados em fios murchiiiinhos e espetados,tão lisos que não seguravam um grampo. Era mais uma vítima de armas químicas nas mãos da cabelereira errada.

Uma escova progressiva desencadeou a busca desesperada pela peruca perfeita. Esta técnica é uma chapinha que não sai. É a promessa de libertação definitiva do estica e puxa da secagem que consome hoooooooooras no cabelereiro e da segurança de que nem vento, nem chuva, nem tempestade são ameaça para o penteado "liso escorrido". Aplicada por mãos inábeis deixa o cabelo igual ao do Chuck, o brinquedo assassino. Confesso que vi poucas bem sucedidas, principalmente quando se recorre a esse recurso com frequência. Depois de cortar o cabelo três vezes em uma semana e fazer cinco hidratações, ela estava decidida : a solução era uma peruca. " Vou economizar tempo e dinheiro sem ir ao salão até tudo voltar a normal". Num site encontrou franjas, rabos de cavalo e outros apliques. Mas a procura era por um apetrecho que encobrisse TODO o desastre químico." Olha , essa é bem natural,né?", disse cheia de esperança diante do meu silêncio. Quem cala nem sempre consente. Endereço na mão partiu rumo a loja de perucas.

Lá encontrou um mundo de possibilidades capilares. Os cabelos artificiais eram mais baratos, mas tinham uma estranha textura. Quem não tem cabelo pode usar fitas adesivas dupla face para uma eficiente fixação na pele, os outros correm o risco de subitamente perder a cobertura craniana presa por uma touca. Quis exprimentar as de fios humanos. Descobriu que esse tipo é caríssimo e precisa ser lavado e secado no cabelereiro, com a vantagem de poder deixar lá a cabeleira e pegar horas depois o novo penteado para acoplar à cabeça. Não encontrou a cor ideal e amanhã continuará a pesquisa em outro endereço. O humor está por um fio. Lembrei de uma amiga que durante muito tempo lançou mão de todos os recursos para ter fios lisos. Desistiu depois de entrar numa festa e ouvir de um pretê que ela era um oásis no universo de chapinhas...Estão enrolados até hoje e ela não grita mais "mulheres com escova primeiro!" diante da ameaça de um temporal.




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