
Foi coisa de segundos.Meu amigo ouviu um carro familiar,foi à janela e disse que a mulher estava chegando. E na sequência falou nervoso: "Tem alguma coisa errada, minha mulher foi sequestrada". Viu a mulher parar o carro, ser abordada e arrancar novamente. Ela estava grávida e a novidade seria celebrada naquela noite. Achei precipitada a conclusão, disse que podia não ser bem aquilo, ela poderia ter ido comprar algo que esquecera, ter visto um amigo... Cinco minutos depois ele seguiu a intuição e ligou para a polícia. Estava certo.
Dentro do carro os assaltantes peguntaram quem era o homem na janela. "Meu marido", respondeu ela. Os bandidos analisaram a situação e decidiram abandonar logo o carro. Foi quando ela ouviu outra voz feminina. Em seu cárcere móvel, trafegando pelas ruas de São Paulo, havia outra vítima de sequestro relâmpago- e a ponto de ter um troço. Minha amiga disse que estava grávida e aos gritos os homens disseram que as duas mantivessem a cabeça baixa.
Em casa, vivi a agonia de meu amigo. Bastaram alguns minutos para uma devastação emocional. Recém-casado, esperando o primeiro filho, o casal começava a vida com difculdade. "Não vou aguentar, não vou aguentar se algo acontecer" ele repetia dando voltas na casa, até que a polícia e os parentes chegaram.
Os ladrões trocaram de carro, sacaram dinheiro no caixa eletrônico e afirmando que também eram " de família , dona", abandoram as duas mulheres numa farmácia. Minha amiga ligou para casa para tranquilizar o marido e pegou um táxi imediatamente. No caminho repassava as cenas que tinha vivido, segurava o ventre com as duas mãos. Tinha ficado incrivelmente calma. Até aquele momento.
Ao chegar em casa foi ter com os policiais, que começaram a descrever os possíveis bandidos - acertaram todos os detalhes! A polícia SABIA quem eram os bandidos, suas características fisicas e que atormentavam a vizinhança havia meses.MESES!Nenhuma comunicação à população da região, nenhum cartaz com o retrato falado dos suspeitos, NADA que pudesse alertar os habitantes sobre o perigo que corriam. "Esse não é nosso serviço, dona". A polícia e a estratégia de segurança não mudam, não envolvem as possíveis vítimas,não tentam montar uma rede de proteção para a vizinhança,retém informações que ajudariam a combater a violência. Mas meus amigos vão mudar. Estão de malas prontas para deixar o bairro.
