Eu me lembro bem das visitas de João Paulo II. Um frisson tomava conta da gente quando ele vinha ao país. Os dias que antecediam à chegada eram dedicados aos preparativos e pairava uma certa euforia . Com Bento XVI foi bem diferente.Em São Paulo todo mundo reclamava, antevia um trânsito ainda mais caótico e isso é o pior dos infernos para o paulistano. Eu mesma marquei um encontro com uma amiga e ela desmarcou argumentando que as ruas estariam intransitáveis por conta do Sumo Pontífice. "Eu tenho medo do Papa", confessou.
O Vaticano é caprichoso, preparou cenários monumentais, reuniu milhares de fiéis, realizou rituais belissimos. É um show, na melhor expressão da palavra, que a ritualização sacraliza. Na missa dos bispos, a visão de dezenas de senhores vestidos de preto com adereços em púrpura impressionava, havia naquela coreografia de orações e reverências uma aura de poder. Gosto de rituais e gostei das posições assumidas claramente, mesmo que não concordasse. Num mundo e em que a conveniência ameaça a sinceridade é muito bom ouvir um discurso sem rodeios.
Acompanhei a polêmica do aborto, dei uma olhada nas coberturas, vi alguns passeios papais com a sensação de que faltava alguma coisa : faltou um hit para o Papa. É, uma trilha sonora para criar uma atmosfera e marcar sua passagem pelo
Brasil. Quem não lembra daquela musiquinha " A benção João de Deus..."?, que pegou de tal forma que mesmo quem não era católico aprendia por osmose. Todo mundo cantava , a multidão tinha uma identidade musical. Quentin Tarantino disse uma vez que escolhe cuidadosamente as trilhas sonoras porque uma música é capaz de trazer à memória cenas de seus filmes. Habemos papa sem hit. Confirmei essa sensação de ausência com algumas pessoas, soube que o hino criado para Bento XVI não pegou.
Os dias papais foram uma aula de marketing pessoal e instituicional, pompa e circusntância.A enxurrada de imagens e informações católicas, a onipresença papal, foi percebida até pelos mais distraídos.No domingo de manhã,eu tomava café numa padaria e um bêbado assistia à transmissão da missa de canonização de Frei Galvão. Forçou para fazer foco na tela,olhou o Papa por algum tempo,disse com uma voz pastosa: " E aí ? Ele veio pra paxar o ano ??".
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário