terça-feira, 27 de março de 2007

Viva o Etanol!!!

Que beleza! Seremos uma potência do etanol. A Terra Brasilis recebe chefes de Estado dos quatro cantos do mundo. Todos seduzidos por nossos imensas plantações de cana, extensões de terra ainda inexploradas e mão de obra semi-escrava, que colhe da terra a matéria-prima de combustível renovável. Um trabalho hercúleo por alguns tostões.

Celebremos esse incrível negócio que está sendo feito pelo nosso competente governo. Em breve veremos todo nosso território novamente tranformado em canavial, tal e qual na época em que eramos colônia. Em vez de escravos, os heróicos usineiros empregarão por salários ridículos um exército de homens e mulheres para cortar várias toneladas por dia nos campos. As queimadas tornarão nosso ar mais irrespirável e ,se usados agrotóxicos , teremos manaciais ainda mais poluídos. Isso sem contar que a área para o plantio de alimentos já começa a encolher e aí também teremos fome. Agradeçamos aos governantes, já que o jejum purifica a alma.

Viva !!! E o brilhante texto abaixo esmiuça a glória nacional executada com brilhantismos por nossos governantes. Um brinde a isso! Com aguardente, se sobrar algo da produção de combustível.

Um Novo Pacto Colonial
Por Gilberto Andrade de Abreu em 22/03/2007
Fonte: Gazeta Mercantil

22 de Março de 2007 - O aquecimento global está provoca efeitos além do clima. E o que nos preocupa, com a valorização da bioenergia, etanol, álcool e quejandos, é a monovisão economicista. Fala-se e repisa-se sobre as oportunidades que o Brasil terá. Hipertrofia-se a capacidade brasileira em tecnologia e terras agricultáveis, além de haver um dimensionamento exagerado dos possíveis ganhos ambientais. Muitos esquecem que o setor sucroalcooleiro recebeu bilhões de dólares no Programa do Pró-Álcool, a partir de 1975, e não se investiu um cêntimo em pesquisa para o álcool-químicos e sucroquímicos. Em suma, apesar dos avanços em mecanização, em geração de energia, na adição de alguns novos produtos, o setor continua o mesmo. Notadamente nos aspectos sócio-ambientais. Salvo as exceções de praxe, neles, a usina apenas sucedeu ao engenho.

A pesquisadora Maria Cristina Gonzaga, da Fundacentro, órgão ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego, não deixa por menos: "o açúcar e o álcool no Brasil estão banhados em sangue, suor e morte. Os trabalhadores são massacrados, ficam doentes o tempo todo por diversos motivos". Se nos anos 80, o trabalhador cortava 4 toneladas de cana ao dia, hoje corta 10 toneladas. Isso lhe dá o direito de receber de R$ 413 por mês. Segundo o Boletim do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador: cada cortador de cana é levado a dar 30 golpes de facão por minuto em oito horas. A Pastoral do Migrante computou, somente no Estado de São Paulo, 17 mortes por extenuação nos canaviais em 2005 e 2006. Em seus laudos médicos, quase sempre se inscreve: "causa-mortis", parada cardíaca. E há outro jeito de morrer?

Em termos ambientais o desastre não é menor. Os mantos vegetais desapareceram. No município de Ribeirão Preto estão reduzidos a meros 3,8%. As matas ciliares que deveriam ter sido poupadas, não existem. As mudanças climáticas já são perceptíveis. Nos meses de estio que vão de abril a setembro registraram-se taxas de umidade relativa do ar baixíssimas. Na segunda semana de 2006 foram inferiores a 10%, fato que revela um estado emergencial. Na Câmara Municipal foi, inclusive, instalada uma Frente Parlamentar para produzir estudos e análises sobre o tema.

Enquanto isso, a "turma da tripa forra" comemora. A produção nacional, segundo dados do Ministério da Agricultura, na safra 2007/08, deve chegar a 475 milhões de toneladas. A produção de etanol deve ultrapassar os 17,5 bilhões de litros previstos. As projeções informam que essa cifra será dobrada.

Os passivos sociais e ambientais serão compartilhados? As distâncias sociais brasileiras serão diminuídas? Haverá um zoneamento agrícola que os norte-americanos adotam desde 1914?

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Gilberto Andrade de Abreu - Gilberto Andrade de Abreu é professor, historiador, escritor, doutorando em Educação pela Unicamp e Vereador em Ribeirão Preto pelo Partido Verde)

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