quinta-feira, 28 de junho de 2007

Gaza e Ibiza



Viagem de ônibus mais rápida que a de avião, só no Brasil. Relaxei. Na rodoviária de São Paulo, tudo muito rápido. Chegar, comprar a passagem e embarcar levou menos de 20 minutos. No ônibus, serviço de bordo, travesseiro, cobertor e filme para distrair. De dar inveja aos passageiros reféns do caos aéreo. E a sensação é muito semelhante a de estar voando: na terra como no ar, o espaço dos passageiros desafia a lei da física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Percurso tranquilo, por do sol na estrada e a chegada no Rio de Janeiro à noite. Na Avenida Brasil, a visão do desleixo urbano na Cidade Maravilhosa. Vias sem iluminação compunham o cenário sinistro de abandono. Silhuetas se esgueirando apressadas nas calçadas escuras entre prédios pixados, lojas fechadas e barracos. O retrato do descaso e da inoperância do poder público, da miséria a que parte da população está entregue. Foi quando o ônibus parou.
Estavamos perto de Vigário Geral. O pneu furado obrigou o motorista a parar no meio da avenida. Ele não tinha rádio, celular ou qualquer meio de comunicação para pedir ajuda. Os passageiros estavam de pé, olhando de um lado para o outro nas janelas, como soldados de prontidão. O nervosismo, estampado no rosto de cada um, revelava o temor de ser um alvo fácil numa área perigosa. Onde ônibus é incendiado com passageiros dentro, carros são tomados de assalto em arrastões e tiroteios são frequentes. Estávamos na Faixa de Gaza carioca.
Ficamos assim até que o serviço de trânsito interditou as pistas para que o motorista pudesse cruzar algumas faixas e parar num posto de gasolina. Em minutos estavam todos com as malas nas mãos prontos para a fuga. Parecíamos náufragos na beira da praia esperando resgate. Ele não veio. Grupos se organizaram para pegar os táxis que estavam abastecendo. Peguei carona com um casal e ouvimos do motorista mais histórias escabrosas sobre a rotina do lugar. Foi sorte, disse ele. Se parássemos um pouco antes certamente teríamos sido depenados.
Chegando na rodoviária o último alerta: cuidado com os táxis piratas. Sem o menor controle eles pegam passageiros, cobram tarifas mais caras, inventam percursos. Não há fiscalização.Ainda bem que um amigo me aguardava. Saltei e, enquanto procurava por ele, notei que a decadência da cidade estava também ali. Esta porta de entrada de turistas estava suja e caindo aos pedaços. Contei rapidamente minha desventura e ouvi um tranquilizante "calma, deixa passar o túnel que chegamos à Cidade Maravilhosa". Esta cidade idealizada e cantada em verso e prosa está cada vez mais restrita à pequena área entre os morros e as praias da zona sul. Gaza e Ibiza separadas por um túnel.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Uma ponte para a alma

"Atravessando a Ponte: O Som de Istambul" é um documentário que faz da musicalidade um guia para desvendar questões étnicas e sociais da Turquia.Logo no início, uma citação de Confúcio fala da intenção do filme : a música revela um povo. E em 90 minutos, o diretor alemão Faith Akin passeia pela cidade para desvendar diversas facetas de Istambul. Mais do que uma viagem auditiva, o filme revela o caldeirão cultural da Turquia.

A câmera percorre cenários surpreendentes. Sai as ruas de uma aldeia para revelar a dançante tradição do casamento dos descendentes de romenos. No por do sol, navega até o estreito de Dardanelos com um grupo tocando a bordo. Mostra a melancolia dos curdos, até 1990 impedidos por lei de falar sua própria língua em território turco, reprensentados por uma cantora que solta a voz na acústica perfeita de uma casa de banhos secular.

Somos levados ao "underground", onde proliferam grupos de rock e rap,músicas de origem norte-americana que se revestem de originalidade na performance de cantores locais.A tradição muçulmana é representada pela delicadeza dos movimentos do giro sulfi e contrasta com a agilidade um ballet de "street dance" dos nativos que incorporam as novidades à rotina de Istambul.

Ciganos nativos sobem ao palco para tocar a alma com um som sensorial e eletrônico. Instrumentos ancestrais revelam acordes muito peculiares e um povo aberto aos mais diversos tipos de influências e combinações. Uma espécie de antropofagia para a criação de partituras que misturam tendências e estilos, do ocidente e do oriente.Uma ponte contruída com música para unir o que a geografia e a intolerância teimam em separar em dois mundos.
Clique no título para ver um pouco da Turquia...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Automóvel, atropelamento e curva


O Zé atravessava a rua na zona sul do Rio de Janeiro quando foi atropelado. Deitado no asfalto, cercado por curiosos e solidários, ficou a esperar por socorro. Demorou.Quando ele já achava que o melhor mesmo era ir andando até o hospital, a ambulância chegou e de dentro dela saiu uma daquelas mulheres de seriado americano: cabelos sedosos ao vento, corpo escultural. Agora vai, pensou o Zé, serei super bem atendido.Ilusão.

Imobilizado,foi tranferido para a maca com aquela pescoceira que protege a coluna e, com todo cuidado, colocado no carro do Resgate. Mal começaram a andar e a maca fez o primeiro movimento brusco,depois escorregava de um lado para outro a cada manobra. Estava solta. A sensação era a de estar preso e deitado num skate gigante e desgovernado. O Zé bem que tentou gritar, fazer ruídos, emitir qualquer sinal que denunciasse o descuido.Em vão, a sirene ligada frustrava qualquer tentativa.Foi deslisando para lá e para cá, batendo nas paredes do carro no ritmo alucinado empreendido pelos motoristas de urgências quando seguem na direção do hospital. Supresa. Quando a corrida maluca terminou no Pronto-socorro estava numa posição tão improvável que deixou os atendentes de queixo caído.Sentia mais dores do que as provocadas pelo atropelamento.

Teve algumas fraturas diagnosticadas, foi engessado.Um trauma na cabeça exigiu que ficasse em observação a noite toda. Frustração. Não havia leitos no hospital. Só havia um lugar: a sala de sutura. Passou a noite vendo cortes, a confecção de pontos para unir as carnes, ouvindo gritos e lamúrias, aspirando os vapores dos medicamentos. Horror. Pela manhã chegou a família. O irmão saiu procurando médicos para conseguir a alta do Zé. Ninguém tinha tempo para liberar o doente confinado ao camarote das costuras. Já passava do meio dia e ele não tinha tomado nem café da manhã.Resolveu se salvar. Trajava aquele uniforme hospitalar, aberto nas costas e amarrado com um lacinho que deixava a mostra o "postérieur" . Não teve dúvida. Levantou-se, pegou os dois envelopes com radiografias que estavam ao seu lado. Colocou um na frente e outro atrás, qual tapa sexo. Olhando para os lados com medo de ser flagrado em sua fuga, saiu com a rapidez que os ferimentos permitiam. Cruzou corredores, passou pela portaria e finalmente chegou ao carro do irmão no estacionamento.Estava a salvo!
E o incrível desta história é que ela realmente aconteceu e pode se repetir com qualquer um no descalabro dos hospitais públicos.

sábado, 9 de junho de 2007

Mãos ao alto!


Histórias de assalto pontuam várias conversas e revelam uma rotina de violência nas cidades do páis.Num encontro interestadual,ouvi episódios que beiram o surreal e que mais parecem contos de uma mente criativa. A perseguição da presa por bandidos fez de um amigo vítima. Chegando a Guarulhos de uma viagem ao nordeste ele trazia na bagagem notebook, cãmera fotográfica e um enorme acervo de pesquisa para um documentário armazenado nos equipamentos. A caminho de casa, o motorista do táxi descreveu minuciosamente a rotina das abordagens feitas pelos bandidos. A localização no trânsito de táxis com a logo das cooperativas que atendem o aeroporto internacional, o acompanhamento do trajeto e a abordagem na chegada ao destino. Pouco depois, meu amigo viveu o roteiro descrito na porta de seu prédio. Perdeu tudo: equipamentos,bagagem,roupas, dinheiro. Quando tentou negociar a entrega do material de pesquisa foi ameaçado com um revolver. Perdeu, como dizem os cariocas.

Em Brasília, no estacionamento onde esperava a chegada da excursão em que um irmão era passageiro, outro amigo foi abordado.Com a tranquilidade de um descapitalizado,nem pensou duas vezes.Saiu do carro com as chaves nas mãos e disse ao bandido para abastecer antes da fuga, que o carro tinha problemas mecânicos e que a ação dele era uma benção - o seguro a ser pago era maior que o valor do veículo. Olhou no bolso do assaltante, viu um maço de cigarros e emendou que não tinha um tostão nem para fumar. O ladrão desistiu do automóvel micado, gentilmente ofereceu um cigarro, que fumou com o rapaz. Foi-se embora, não sem antes oferecer seus préstimos e amizade, assegurando que podia ser encontrado ali todas as noites.

O caso mais pitoresco foi o do sequestro de um celular também em Brasília. No dia do fechamento de uma publicação, com todos os números de contatos arquivados na memória do aparelho, o usuário deu por falta dele. Telefonou para seu número e ouviu uma absurda proposta de pagamento de resgate. Topou. Desesperado saiu para encontrar o ladrão. Ele estava a bordo de um ônibus,era fim de tarde e o tradicional caos no trâsito tinha se estabelecido. Tentando identificar o coletivo do meliante foi levado por um amigo numa perseguição de filme policial pelas ruas da cidade. Meia hora depois localizou o ônibus: o ladrão estava com uma camiseta na janela. No ponto seguinte, o ônibus parou. Estava lotado. A vítima subiu, ficou cara a cara com o ladrão que recebeu o dinheiro, entregou o aparelho e foi aplaudido pelos outros passageiros que pensaram ser aquela uma boa ação e não uma extorsão mediante sequestro de celular.