
O Zé atravessava a rua na zona sul do Rio de Janeiro quando foi atropelado. Deitado no asfalto, cercado por curiosos e solidários, ficou a esperar por socorro. Demorou.Quando ele já achava que o melhor mesmo era ir andando até o hospital, a ambulância chegou e de dentro dela saiu uma daquelas mulheres de seriado americano: cabelos sedosos ao vento, corpo escultural. Agora vai, pensou o Zé, serei super bem atendido.Ilusão.
Imobilizado,foi tranferido para a maca com aquela pescoceira que protege a coluna e, com todo cuidado, colocado no carro do Resgate. Mal começaram a andar e a maca fez o primeiro movimento brusco,depois escorregava de um lado para outro a cada manobra. Estava solta. A sensação era a de estar preso e deitado num skate gigante e desgovernado. O Zé bem que tentou gritar, fazer ruídos, emitir qualquer sinal que denunciasse o descuido.Em vão, a sirene ligada frustrava qualquer tentativa.Foi deslisando para lá e para cá, batendo nas paredes do carro no ritmo alucinado empreendido pelos motoristas de urgências quando seguem na direção do hospital. Supresa. Quando a corrida maluca terminou no Pronto-socorro estava numa posição tão improvável que deixou os atendentes de queixo caído.Sentia mais dores do que as provocadas pelo atropelamento.
Teve algumas fraturas diagnosticadas, foi engessado.Um trauma na cabeça exigiu que ficasse em observação a noite toda. Frustração. Não havia leitos no hospital. Só havia um lugar: a sala de sutura. Passou a noite vendo cortes, a confecção de pontos para unir as carnes, ouvindo gritos e lamúrias, aspirando os vapores dos medicamentos. Horror. Pela manhã chegou a família. O irmão saiu procurando médicos para conseguir a alta do Zé. Ninguém tinha tempo para liberar o doente confinado ao camarote das costuras. Já passava do meio dia e ele não tinha tomado nem café da manhã.Resolveu se salvar. Trajava aquele uniforme hospitalar, aberto nas costas e amarrado com um lacinho que deixava a mostra o "postérieur" . Não teve dúvida. Levantou-se, pegou os dois envelopes com radiografias que estavam ao seu lado. Colocou um na frente e outro atrás, qual tapa sexo. Olhando para os lados com medo de ser flagrado em sua fuga, saiu com a rapidez que os ferimentos permitiam. Cruzou corredores, passou pela portaria e finalmente chegou ao carro do irmão no estacionamento.Estava a salvo!
E o incrível desta história é que ela realmente aconteceu e pode se repetir com qualquer um no descalabro dos hospitais públicos.
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