quinta-feira, 5 de abril de 2007

Quéquiói?

Viajar é conhecer falares e visões do mundo. Sentada numa poltrona de ônibus rumo à Goiânia pude aferir os estragos do apagão aéreo que poucas reportagens revelaram. Na cadeira ao meu lado estava um dos mais engajados no coro de reclamações. Contou que desistiu de voar quando viu passageiros invadirem um avião para retirar pessoas embarcadas e fazer prevalecer a ordem caótica das decolagens. Grudado ao celular disparava críticas ao governo, justificava o atraso e amargou a perda de um negócio. Tinha passado a noite em claro no aeroporto e o cansaço acabou vencendo a indignação.

Na estrada, a medida em que o ônibus se afastava de Brasília, passava na janela a miséria e a desorganização urbana das cidades próximas à capital. Visão que só se reverte na chega a Goiânia. Um ar de prosperidade envolve a cidade, que foi planejada e conserva um belo patrimônio art-decô. A tranquilidade permite casas com muros baixos e um relaxado descanso em bancos de praça para aliviar o torpor provocado pelo calor. As ruas são limpas e arborizadas.

Ao estacionar o carro entrei em contato com o saboroso dialeto falado nas ruas. "Pó dá umpassadim deôi?", perguntou um passante.A sonoridade era a de uma língua estrangeira e,com a ajuda de um nativo, veio a tradução : posso dar uma passadinha de olhos? Era o guardador de carro oferecendo seus préstimos. Parece que por lá as frases ditas rapidamente destacam apenas as sílabas principais. Aquelas que ELES julgam essenciais para a comunicação. Para quem dirige e quer se inciar no dialeto goianês há ainda uma outra frase importante: " Quequiói?".Não há motivo temer desentendimentos: diante da dúvida, gestos ajudam na solução de qualquer enigma verbal e na decisão de querer que o interlocutor olhe o carro.

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