

Viagem de ônibus mais rápida que a de avião, só no Brasil. Relaxei. Na rodoviária de São Paulo, tudo muito rápido. Chegar, comprar a passagem e embarcar levou menos de 20 minutos. No ônibus, serviço de bordo, travesseiro, cobertor e filme para distrair. De dar inveja aos passageiros reféns do caos aéreo. E a sensação é muito semelhante a de estar voando: na terra como no ar, o espaço dos passageiros desafia a lei da física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Percurso tranquilo, por do sol na estrada e a chegada no Rio de Janeiro à noite. Na Avenida Brasil, a visão do desleixo urbano na Cidade Maravilhosa. Vias sem iluminação compunham o cenário sinistro de abandono. Silhuetas se esgueirando apressadas nas calçadas escuras entre prédios pixados, lojas fechadas e barracos. O retrato do descaso e da inoperância do poder público, da miséria a que parte da população está entregue. Foi quando o ônibus parou.
Estavamos perto de Vigário Geral. O pneu furado obrigou o motorista a parar no meio da avenida. Ele não tinha rádio, celular ou qualquer meio de comunicação para pedir ajuda. Os passageiros estavam de pé, olhando de um lado para o outro nas janelas, como soldados de prontidão. O nervosismo, estampado no rosto de cada um, revelava o temor de ser um alvo fácil numa área perigosa. Onde ônibus é incendiado com passageiros dentro, carros são tomados de assalto em arrastões e tiroteios são frequentes. Estávamos na Faixa de Gaza carioca.
Ficamos assim até que o serviço de trânsito interditou as pistas para que o motorista pudesse cruzar algumas faixas e parar num posto de gasolina. Em minutos estavam todos com as malas nas mãos prontos para a fuga. Parecíamos náufragos na beira da praia esperando resgate. Ele não veio. Grupos se organizaram para pegar os táxis que estavam abastecendo. Peguei carona com um casal e ouvimos do motorista mais histórias escabrosas sobre a rotina do lugar. Foi sorte, disse ele. Se parássemos um pouco antes certamente teríamos sido depenados.
Chegando na rodoviária o último alerta: cuidado com os táxis piratas. Sem o menor controle eles pegam passageiros, cobram tarifas mais caras, inventam percursos. Não há fiscalização.Ainda bem que um amigo me aguardava. Saltei e, enquanto procurava por ele, notei que a decadência da cidade estava também ali. Esta porta de entrada de turistas estava suja e caindo aos pedaços. Contei rapidamente minha desventura e ouvi um tranquilizante "calma, deixa passar o túnel que chegamos à Cidade Maravilhosa". Esta cidade idealizada e cantada em verso e prosa está cada vez mais restrita à pequena área entre os morros e as praias da zona sul. Gaza e Ibiza separadas por um túnel.
3 comentários:
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Não li, mas já gostei. Saudades.
Marco
Agora visitei com mais calma e gostei do que li. bjo
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