No filme “Proposta Indecente” , Diana, a personagem de Demi More, depois de muito ponderar com o seu marido, David Murphy, interpretado por Woodey Harrelson, aceita dormir com outro homem em troca de um milhão de dólares. Iremos, neste ensaio aproximar a proposta que está sendo negociada neste neste filme de alguns estudos antropológicos e etnográficos para demonstrar como a dimensão simbólica das trocas, mesmo em instâncias individuais e não apenas morais, como indica Mauss em sua obra “Ensaio sobre a Dádiva”, media as nossas relações mas não são vividas como tais.Mauss confere, às trocas nas sociedades primitivas, a categoria de “fato social total” que se exprime ao mesmo tempo, e de uma só vez, todas as espécies de instituições. Ele vai buscar em etnografias dados para configurar o seu conceito. Assim, o “kula” no Pacífico Ocidental e o “Potlatch” entre os nativos norte-americanos tornam-se emblemas da sua construção analítica que nos revela o quanto há de simbólico nas trocas entre coletividades.
“Nas economias e nos direitos que precederam os nossos, não se observam nunca, por assim dizer, simples trocas de bens, de riquezas e de produtos no decurso de um mercado passado entre os indivíduos. Em primeiro lugar, não se trata de indivíduos, trata-se de coletividades que se obrigam mutuamente, trocam e contratam; as pessoas presentes ao contrato são pessoas morais: clãs, tribos, famílias, que se atacam e se opõem, quer em grupos desafiando-se directamente, quer por intermédio dos seus chefes, quer de ambas estas duas maneiras simultaneamente. Além disso, o que eles trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e imóveis, coisas úteis economicamente. São, antes de mais, amabilidades, festins, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças festas, feiras, cujo mercado não é senão um dos seus momentos e em que a circulação de riquezas mais não é do que um dos termos de um contrato muito mais geral e muito mais permanente.”
Em “Proposta Indecente”, na ordem do comércio, individualmente, o milionário John Cage interpretado por Robert Redford oferece um valor monetário hiperbólico para dormir com uma mulher. Ainda na ordem da razão prática desse comércio o casal aceita a proposta para pagar dívidas, construir uma casa, “garantir um futuro”. Afinal seria apenas uma noite em troca de um serviço de um corpo que seria oferecido sem o “hau”, o “mana” ou alma dos objetos que circulam nas trocas das coletividades primitivas.
“Uma cena decisiva é aquela em que, no cassino, ele pede-lhe que jogue em seu lugar – ela joga e ele ganha. Por meio desse gesto, ele seduz – é como se ele apostasse nela esse milhão de dólares, como se de repente ela se tornasse a aposta viva da partida e, como ganha , é como se ela tomasse o lugar do milhão de dólares que ele oferece para passar a noite com ele.... Não é que ela “valha ”um milhão de dólares; enquanto ser singular, ela não vale nada. Mas o milhão de dólares, posto em jogo dessa forma, também não vale nada – e é nessa circunstância de não-valor, nessa circunstância do nada , que podem passar de um a outro, de um no outro, sem perder na troca.”
O sociólogo e filosofo Jean Braudillard, ao analisar o filme, dá-nos a pista para entendermos que é na fantasia do aniquilamento ou na transfusão do valor que se dá, o que poderíamos dizer, uma não-troca como a proposta indecente feita pelo bilionário Cage e aceita pela pobre Diana seduzida por esse pacto: a mulher estaria neste jogo como um serviço a ser contratado e destituído de significados senão o comercial em que o seu objetivo deve ser o gozo de Cage mediado por um valor monetário que, na ordem cultural capitalista, pode ser trocado por tudo.
Inadvertido, Cage celebra o pacto que aos poucos se revela destituído de força porque o que ele queria comprar era o que não podia ser vendido, como um objeto sagrado que não circula nas sociedades primitivas descritas por Mauss. Cage invejava a relação, a cumplicidade amorosa que Diana tinha com o seu marido David e queria apropriar-se dela como se isso fosse possível.
David é um homem que vive o conflito entre o interesse e desinteresse de um milhão de dólares. É ele quem destrói o valor monetário, como em um Potlach, dedicando todo o dinheiro à causa da preservação dos hipopótamos, um ato que ele vive como de desapego para renascer “puro” e talvez resgatar mais tarde a sua relação com Diana. Mas o próprio Mauss sugere que “mesmo a destruição pura das riquezas não corresponde ao desapego completo que nela se poderia julgar contido. Mesmo estes actos de grandeza não estão isentos de egotismo” .
Inadvertida, Diana celebra o pacto imaginando que o seu corpo (taonga) estaria nesse acordo destituído da sua alma (hau). Mas já no direito maori citado por Mauss, o taonga está animado pelo hau da floresta, do seu território, do seu solo, ele é verdadeiramente “nativo”: o hau persegue qualquer detentor. A alma é parte do corpo de Diana e separa-la seria uma segunda fantasia que a seduz e que talvez seja a verdadeira razão de ter aceitado o contrato.
Uma equação cujo resultado é zero parece ser estabelecida entre eles. No entanto, o que podemos entender desse ensaio, com ajuda de Mauss e de outros autores, é que os participantes da “Proposta Indecente” vivem essa troca sem relação com qualquer construção analítica, assim como os participantes do Kula ou do Potlatch.
Eles vivenciam esse fenômeno, não como fluxos especulativos em torno de uma razão simbólica para os seus atos, e sim, com a fé, no acreditar em sua prática cotidiana de moral, direitos e obrigações, tão naturalmente quanto a própria língua que falam.
O pacto é realizado e vivido pelos protagonistas como se relações não fossem mediadas pelo simbólico. Shalins , ao traçar um paralelo entre a ordem da sociedade burguesa e a ordem das sociedades primitivas, conclui: “ devido ao fato do produtor se apresentar em busca de lucro, o consumidor em busca de bens “úteis”, o caráter simbólico básico do processo passa inadvertido para seus participantes”.
Mauss confirma a nossa a hipótese no trecho seguinte:
“Os historiadores sentem e objectam com todo o direito que os sociólogos constróem demasiadas abstrações e separam demasiado uns dos outros os diversos elementos das sociedades. É preciso fazer como eles: observar o que é dado. Ora, o dado é Roma, é Atenas, é o francês médio, é o melanésio desta ou daquela ilha, e não a oração ou o privilégio em si ” .
O pensar sobre as questões simbólicas dentro do contexto do “Kula”, do Potlatch ou da “Proposta Indecente”, como pode sugerir qualquer construção analítica do fenômeno, parece tão estranho para um nativo ou para um dos protagonistas do filme quanto a um de nós comprar uma palavra do nosso vocabulário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário