segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Sacar e clicar

Duas da tarde. Os 5 convidados chegam na hora marcada. Ocupam seus lugares enquanto os olhos vagueiam pela sala a procura de uma fonte de energia. Na sequência sacam de suas bolsas os notebooks e postam as máquinas em cima da mesa. Ao lado deles os celulares e os blackberries. Lembra um filme de faroeste, em que os personagens apresentam suas armas na mesa do bar. Num power-point, a agenda de discussão, o projeto e o plano de ação. As dúvidas que surgem são resolvidas com um "google". O encontro se encerra com a cerimônia de troca de e-mails , envio de arquivos e material para pesquisa.

Presos aos grilhões eletrônicos, sempre acessíveis e acessando. Numa rápida conversa, os tetemunhos daqueles que passam horas movendo os olhos e alguns músculos das mãos, clicando incessantemente. Tenho circulado por escritórios de grandes corporações e observado o silêncio dos ambientes. As conversas são pelos sistemas de comunicação interna, o olhos fixos nas telas privilegiam os interlocutores virtuais. Numa ligação para um amigo que tinha acabado de trocar de emprego, ele logo me alertou : " Você tem que falar rápido! Em um minuto realizo três operações financeiras". Desliguei - mandei um e-mail.

Na internet, esta ferramenta que abre um milhão de possibilidades para os curiosos de plantão, encontrei o outro lado deste universo high-tech. Apenas 16,3% das casas brasileiras têm computadores e 12,4% estão conectados à internet (Pnad/2004). Segundo essa pesquisa as escolas públicas atendem mais de 50 milhões de crianças e jovens, e a Unesco revelou, depois de entrevistar cinco mil professores em 26 estados e na capital do país, que mais da metade não navega na internet e nem sequer acessa correio eletrônico.

A exclusão digital caracteriza-se como um aspecto da exclusão social, limita o exercício da cidadania. Esta constatação tem animado debates de pensadores da sociedade da informação/conhecimento. Herbert Schiller, da Universidadade da Califórnia, fala da “informação socialmente necessária”.Ele destaca que, do jeito que a coisa anda, em vez da democracia prometida pelos recursos tecnológicos, o que se vê é que desigualdades sociais e econômicas se acentuam e se intensifica o isolamento da população que não está inserida neste universo conectado. Os pobres, que são maioria da população e recebem educação precária, tem sido crescentemente escanteados,apartados do conhecimento.São atores sociais sem acesso ao palco tecnológico.

Como a informação e conhecimento definem quem detém o poder, o dinheiro garante que os ricos fiquem mais ricos e mantenham seu status. Quem é vitima da divisão virtual da sociedade, fica privado do acesso às ferramentas que permitem formas diferentes de compreender e se inserir no mundo moderno. Os pobres tornam-se cada vez mais pobres, financeira e intelectualmente. São vítimas do chamado apertheid digital,, que vai se aprofundar cada vez mais enquanto os processos pedagógicos desprezarem o potencial dos equipamentos porque os professores das escolas públicas não sabem lidar e/ou não tem acesso aos laboratórios de informática.

Para saber mais sobre Schiller é só clicar no tílutlo desta postagem e ler o material escrito por Tânia de Morais Soares. É só mexer alguns músculos das mãos, os olhos e ativar os neurônios....

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